Uma pesquisa recente trouxe um dado que não deveria surpreender, mas surpreende: 9 em cada 10 mães brasileiras apresentam sinais de burnout parental. Entre os relatos mais frequentes estão culpa constante, sensação de sobrecarga, exaustão emocional e dificuldade de equilibrar maternidade, trabalho e vida pessoal.
A matéria publicada pela Exame em maio de 2026, "A geração de mães exaustas: o impacto invisível da performance materna na vida e na carreira", coloca em palavras algo que eu acompanho há anos nos atendimentos, nas palestras e nas conversas com famílias: nunca tivemos tantas mães informadas, conscientes e comprometidas. E talvez nunca tantas tenham vivido com essa sensação permanente de não estar fazendo o suficiente.
Você pode ler a matéria completa aqui.
O problema não é a maternidade. É o que fizemos com ela.
Existe uma diferença fundamental entre cuidar e performar cuidado. Cuidar é um ato presente, humano, imperfeito e suficiente. Performar cuidado é outra coisa: é a tentativa exaustiva de corresponder a um ideal que não existe, de ser sempre presente, sempre regulada, sempre produtiva, sempre paciente, sempre disponível.
E quando uma mãe chega até mim esgotada, raramente o problema é que ela cuida de menos. Quase sempre o problema é que ela acredita que ainda não está fazendo o suficiente.
Isso tem nome. Winnicott chamou de "mãe suficientemente boa" aquela que não precisa ser perfeita. Precisa ser real. Mas a cultura que construímos em torno da maternidade contemporânea parece ter esquecido completamente o que isso significa.
O que a neurociência nos diz sobre isso
Estados prolongados de sobrecarga têm custo real no corpo e no cérebro. Não é fraqueza. É fisiologia.
Quando uma pessoa permanece em estado constante de hipervigilância, atenta a tudo, responsável por tudo, sem espaço para descanso sem culpa, o sistema nervoso paga a conta. A memória se fragmenta. O sono se deteriora. A capacidade de regulação emocional diminui. E, paradoxalmente, a presença que a mãe tanto deseja oferecer ao filho se torna cada vez mais difícil.
A neurocientista Lisa Mosconi pesquisa especificamente como o cérebro feminino responde a períodos prolongados de acúmulo de demandas emocionais, cognitivas e hormonais. Os resultados são contundentes: esse acúmulo atravessa todas as esferas da vida, inclusive o trabalho, inclusive os relacionamentos, inclusive a capacidade de estar presente com quem mais se ama.
A conexão com o Método VELLA
Essa semana estou em Orlando participando da imersão Líder Consciente, e um dos temas que mais ressoa com o que tenho estudado e vivido é exatamente este: o que acontece quando o adulto que deveria ser referência emocional para uma criança está, ele mesmo, emocionalmente esgotado?
O Método VELLA parte de um princípio que parece simples, mas tem implicações profundas: o desenvolvimento da criança acontece na relação. E toda relação tem dois lados.
Um dos pilares que mais trabalhamos é o vínculo seguro. E vínculo seguro não é sinônimo de presença constante. É sinônimo de presença real. Uma mãe que se cuida, que reconhece seus limites, que pede ajuda e que não se culpa por ser humana está, na prática, ensinando ao filho algo que nenhum livro de autoajuda consegue: que é possível existir no mundo com dignidade, com autocuidado e com responsabilidade.
Uma criança não aprende apenas com o que a mãe oferece. Ela aprende observando a forma como essa mulher existe no mundo.
Isso também é uma pauta corporativa
A matéria da Exame chama atenção para algo que raramente aparece nas métricas de produtividade: a carga mental invisível que mulheres sustentam silenciosamente enquanto seguem entregando resultado.
Empresas que ignoram essa dimensão humana contribuem para o adoecimento de profissionais extremamente competentes. E isso tem custo, em turnover, em engajamento, em clima, em retenção de talentos.
Quando falo de inclusão e pertencimento nas organizações, estou falando exatamente disso: de ambientes que reconhecem que por trás de cada profissional existe um ser humano inteiro, com vida, com cuidados, com limites e com necessidades que vão além do que aparece nos relatórios.
O que eu gostaria que cada mãe lesse aqui
Você não precisa adoecer para provar que ama.
Você não precisa se anular para ser boa mãe.
E descansar não é egoísmo: é condição para que o amor que você tem a dar chegue, de verdade, até quem você ama.
O desenvolvimento humano não começa nas habilidades. Começa na relação. E relações saudáveis precisam de dois lados presentes, não apenas um lado exausto tentando sustentar tudo sozinho.
— Lilian Moura
Neuropsicopedagoga | Educadora Parental | Criadora do Método VELLA
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